24 de setembro de 2011

Desistir de um sonho... é desistir de si mesmo... II- Final.


Mas aquele era um dia diferente. O sol nem dera o ar de sua graça. Ela deveria saber que era um dia diferente. Mas não percebeu. Viveu como se fosse igual a qualquer outro, a qualquer um. Nem os passarinhos cantaram na sua janela naquela manhã, as galinhas não saíram do galinheiro como de costume. Ela deveria saber! Meia hora depois, nem lembraria ao certo o que foi que aconteceu.
Marisa, assim era o nome da amiga, era aquele tipo de mulher que mesmo de salto, impunha a espada e lutava por aquilo que queria, mas isso não a fazia perder a delicadeza e doçura, femininas. Ela sempre soube ser simpática com as pessoas. Onde Não foi nada que ela havia dito. Pelo menos não diretamente. Era algo lá dentro, nas entranhas da mulher que visitava a amiga do passado, que estava muito bem, obrigada! Tão bem, que isso começou a incomodá-la. Não era inveja que abateu sobre seu espírito fraco. Não, não era!
De repente foi se sentindo pequena diante de uma mulher tão grande; não no tamanho, mas, nas conquistas e lutas. Elas haviam crescido juntas, iam contando histórias no caminho para a escola chegaram a gostar do mesmo menino quando estavam na quinta série, e para não brigarem; decidiram esquecê-lo.  A vida um dia as separou.  Não fossem as doces recordações... não tinham nada para conversar. Estavam diferentes e distantes demais.  Só agora é que foi perceber.  A vida transformava a todos e havia transformado elas também.
O que fizera com a sua vida? O que deixara de fazer por ela?
Não prestou mais atenção a tudo que Marisa falava. Simplesmente não conseguiu. Seus pensamentos novos e estranhos  desconectaram- na do mundo.
Tentava compreender o que foi que aconteceu. O que ela estava fazendo enquanto a amiga realizava seus sonhos?
Nunca havia saída de seu Estado, o sonho de conhecer o mundo jazia numa gaveta escura e fria, na sala secreta da alma.
-         Amiga! – disse com entusiasmo, de repente Marisa, como que se lembrando de algo – Eu fui ao salar da Bolívia! – contou feliz - Lembra que sonhávamos em conhecer?
- O salar da Bolívia. – repetiu em pensamento – O maior deserto de sal do mundo. Como poderia esquecer? Esqueceu-se apenas de ir lá, encontrar-se com seu, SEU sonho. Mas que aquela mulher, aquela linda e poderosa mulher a sua frente, conheceu e ela não!
Marisa contava-lhe como era estar lá, numa das regiões mais remotas da Terra, e cada palavra parecia um punhal se encravando em sua alma adormecida.
-         O lugar é habitado pelos índios quíchuas que vivem do pastoreio de lhamas e da plantação de batatas. – dizia Marisa, alheia aos sentimentos da outra – Aliás, por lá andaram também os Incas em suas peregrinações.
É, isso ela já sabia... Quando sonhara em ir ao sul da Bolívia conhecer o salar, começou a pesquisar sobre o lugar e acabou lendo em algum livro ou revista, já não lembrava mais, sobre aquele caminho de peregrinação Inca. O Salar pareciam tão fascinantes que, às vezes, era difícil acreditar que realmente existia. Mas pelo relato de Marisa, tudo era mais real do que jamais poderia crer. Tão real que começou a sentir uma forte e imensa inveja.
Agora sim era inveja.
Desgostosa, levantou-se. Tinha vontade de chorar, gritar, qualquer coisa, menos continuar ouvindo o relato da viagem que tanto quisera fazer e que quem fizera fora a melhor amiga do passado e não ela, a pessoa que ousou sonhar com aquele lugar inóspito na Cordilheiras dos Andes.
Passou tantos dias pensando naquele deserto, relatando tudo o que descobria a respeito do lugar para sua melhor amiga. O sonho era seu, seu! Como ela ousara roubar-lhe?
Roubar-lhe algo que ela nunca lutou de verdade para ter, para viver.
Alguém sem sonhos já era horrível, mas alguém com sonhos e sem coragem para realizá-los era pior ainda!
O que ela não lembrava, ou não queria lembrar, era que o sonho não era apenas dela, ambas sonharam juntas, só que uma lutou para torná-lo realidade e a outra não.
É claro que, bem no fundo ela ainda se lembrava, mas para não sentir-se pior ainda, tentava desesperadamente encontrar uma desculpa que não a condenasse. Que a permitisse continuar respirando depois daquele dia, daquela tarde triste.
Sentiu-se fraca, muito fraca. Precisava despedir-se enquanto ainda era tempo, antes que o chão se abrisse e a engolisse em suas trevas. Deu uma desculpa qualquer e foi arrastando os pés, costas arcadas carregando o peso da alma triste e estranha.
Ela chorou. ..
copyright, M.C.Jachnkee

12 comentários:

  1. Que bonito, Marli!
    Adoreiiii...
    Bom domingooo de estudos, é "nóis"!!!!
    Bjos =*

    ResponderExcluir
  2. Olá Marli,
    Muito bonito, parabéns!
    Abraços!!

    http://devoradordeletras.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  3. Lindo demais Marli... quando deixamos de sonhar, morremos!

    Bjinhoss XD

    ResponderExcluir
  4. Adorei o seu ritmo e a colocação das palvras!!!
    Lindo!!

    ResponderExcluir
  5. Obrigada amigos!!
    Pessoas sem sonhos são pessoas vazias. Por isso são vazias, mesquinhas e arrogantes!
    Buscam sempre criticar o outro, porque são incapazaes de assumirem seus desejos mais secretos!
    E em uma tentaiva de enganar a si mesmo, apontam o dedo para o outro. Não tem a ousadia de olhar para si, ver seus milhares de defeitos e recomeçar a cada dia!

    ResponderExcluir
  6. Emotivo texto . No hay un solo día que un sueño de nuestro tiempo se haga dueño.Tus escritos invitan a la reflexión y al recogimiento interior.Saludos poéticos.

    ResponderExcluir
  7. Nossa Marli, to aqui até agora admirada com cada linha, incrível como você nos transporta para qualquer lugar junto com os seus personagens, até parecia que estava vendo a cena diante dos meus olhos...amo a literatura....e os escritores que nos transportam para um momento no tempo.

    Beijokas elis!!!!

    ResponderExcluir
  8. oI ELIS, QUE BOM LER ISSO....FICO REALMENTE MUUUUITO FELIZ EM SABER QUE POSSO LEVAR OS LEITORES JUNTO COMIGO!!
    E COM OS PERSONAGENS!! HEHEHEEH
    BEIJINHOS, FLOR!

    ResponderExcluir
  9. Que texto abençoado!
    Escreves muito bem,sabias?
    Bjs

    ResponderExcluir

Obrigada por sua visita e por seu comentário!

Beijinhos!

© M.C. JACHNKEE. Powered by Blogger :: Voltar ao topo imagem-logo