4 de novembro de 2011

O véu da tristeza cobriu sua alma...


O pedaço de lenha moveu-se. O pai suspirou, o filho tremeu. Segurou com mais força. Mais e mais. Podia sentir seus nervos contraídos. Suas mãos e braços até doíam-lhe de tanta força que fazia para que, de jeito nenhum a tábua se movesse novamente.
Ela moveu-se.
O pai, bruscamente colocou a mão em cima da do filho e segurou com força.
-         Tem que fazer força. – disse a voz forte – Senão nunca vai conseguir!  - exclamou. Dentro de si, ele acreditava, realmente acreditava, que situações como aquela eram importantes para ensinar seu filho. Prepará-lo para quando crescesse. Para quando fosse homem!
O Universo nunca compreendeu por que algumas pessoas insistiam em cometer os mesmos erros que um dia alguém cometeu com elas. Por que, afinal, tentavam ensinar pelo caminho errado?
Com gestos rudes tomou a tábua na mão e caminhou até o chiqueiro. O menino deu alguns passos indecisos, não sabia o que fazer, até o pai mandá-lo segurar a tábua para que ele pregasse no lugar da que apodrecera com o passar do tempo, e que o animal acabou por quebrá-la.
-          Segura direito agora! – falou com os dentes cerrados.
Estava cansado. Cuidar da roça, consertar aqui e ali, rachar a lenha. Nunca parava por que o tempo não o permitia. Quem vivia no interior sempre estava em movimento, trabalhando. O homem do campo era muito ocupado. E com o fantasma da febre aftosa, chuva demais, seca, sempre havia o que se fazer, com o que se preocupar.
Mas ele se preocupava demais, vivia de menos. No geral, os homens do campo eram os que melhor viviam a vida, mesmo com tanta responsabilidade e cansaço conseguiam sorrir alegremente.
A mesma situação podia não ter a mesma repercussão em todos.
Com esforço descomunal, a tábua não se mexeu. Isso é certo! Tão certo quanto o fato de que o homem martelou o dedo.
-          Seu estúpido! – exclamou, jogando o martelo no chão.
Culpou o menino.
A tábua não se mexeu. Certeza!
Ergueu a mão que estava boa e preparou um golpe certeiro bem no ouvido. Mas ela parou no ar, o menino com olhos assustados, coração acelerado diante dele enquanto os anjos faziam seu trabalho, segurando a mão daquele adulto que não havia compreendido o que era ser pai.
Baixou a mão, num gesto disfarçado e disse sem olhar para o filho, enquanto pegava o martelo que estava caído no chão.
-         Sai daqui! – voz forte – Antes que eu... – ameaçou erguer a mão novamente.
Jê compreendeu, e saiu em passos rápidos. Estava com medo. Muito medo de apanhar do pai.
Seu peito doía, por causa da sensação. Da situação vivida, das palavras, do tom, do gesto. Mas principalmente, por que aquele homem era seu pai. Amava ele, mas ele não parecia amá-lo da mesma forma.
Por que então, foram escolhidos para viverem juntos?
O véu da tristeza cobriu sua alma.
Trecho de Estranho, num mundo estranho- Marli Carmen Jachnkee- copyright

7 comentários:

  1. gentem... que maravilha esse texto, toca profundamente o coração
    beijos bom finde

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  2. Oi Fabi...é...realmente toca...muitas vezes julgamos os pequeninos nas escolas, nas ruas...esquecemos de compreender por que cresceram assim...com tanta falta de amor.
    beijinhos

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  3. Os porcos são muito mais agradáveis que esse homenzinho... Ele é quem deveria estar trancado no chiqueiro.

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  4. Há tanto por se redescobrir, razões por estarmos aqui... O amor é a força maior a vencer os obstáculos que d'algum tempo se desconhece...
    Mas nada será em vão, quando um dia o despertar, acordar o coração...

    Lindo texto

    feliz fds Marli

    bjs

    Livinha

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  5. Oi Cesar...obrigada pelo comentário aqui no post!

    Olá Livinha...sim, o amor...ele é a grande razão de tudo! Bjs

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  6. Boa tarde Marli.
    Lindo post, você esta muito inspirada hein!
    Abçs.
    http://devoradordeletras.blogspot.com/

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Beijinhos!

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