21 de setembro de 2012

ESTRANHO NUM MUNDO ESTRANHO I



Sentia-se observado. Procurou por quem o estivesse olhando. Girou a cabeça de um lado para outro. Virou o corpo e olhou para trás. Ficou em silêncio, tentando ouvir passos; movimento.


Nenhum barulho, nem ninguém. Apenas a sensação de ter sido observado.


Foi-se. Sentia-se só novamente. Voltou a atenção para a tangerina que estava em sua mão, continuou a descascá-la. Comeu devagar, goma a goma, depois colheu outra e outra até se fartar da fruta ácida.


Era tarde de domingo. Um domingo qualquer, de qualquer mês que houvesse tangerina.




Passos no assoalho acordaram Jê naquela manhã fria que dava frutos a tangerineira.
Levantou-se.
Quando sua mãe entrou no quarto, já estava com o uniforme vestido em seu corpo pequenino de pele macia. Ela pensou - pela milésima vez- em como ele não lhe dava trabalho. Parecia que já havia nascido grande. Isso, às vezes, a assustava. Por que não sabia se era bom. Só sabia que era diferente, e o diferente sempre assustou a humanidade desde os tempos antigos até os atuais. 
Eu preparei aquele pão que você gosta. – disse ela.
Para aproveitar o pão velho, mas que ainda não tinha mofado era de costume as pessoas do interior fritarem fatias de pão banhado numa mistura que consistia em bater um ovo, com duas colheres de trigo, um pouco de canela e açúcar.
E Jê adorava o pão frito naquela mistura. Sua mãe bem sabia!
Criaturas abençoadas, sempre pensando nos filhos, mesmo nos pequenos gestos, mas que faziam toda a diferença.
- Obrigado mãe! – agradeceu enquanto lhe dava um rápido abraço e ia para a cozinha se alimentar antes que o ônibus chegasse para levar as crianças à escola.
Era difícil ir para a escola. Gostava e não gostava. Amava e odiava.
Bom: eram os amigos, as brincadeiras, a professora.
Ruim: eram os outros que queriam muitas vezes, a todo custo, fazê-lo se sentir inferior por seu material simples e a mochila velha do ano passado.
Bom era aprender. Português e matemática. Difícil matemática, mas bom.
Difícil e bom.
Desenhar era bom!
Ruim era não poder ir à fila da cantina nem sequer uma vez na semana. Não que a merenda fosse ruim, era boa! Só queria poder experimentar também os bolos da cantina. Mas não tinha dinheiro. Por que não tinha dinheiro? Seu pai trabalhava como todos os pais. Jê ficou um pouco intrigado onde seu inocente pensamento o levara e sentiu que o mundo podia ser estranho se, se pensasse no mundo.(M.C.Jachnkee)

5 comentários:

  1. Gostei do texto Marli! Será o prelúdio de algum livro? Curiosa aqui! Beijos!

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  2. Hum...gostei demais desse pequeno aperitivo do seu trabalho!^^ Parece ser um ótima trama.^^
    Bom começo de semana.
    Beijinhos!
    Paloma Viricio- Jornalismo na Alma

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  3. Olá Msrli, que lindo esse texto. Ainda bem que é só a primeira parte, porque eu já estava desejando mais.

    Beijos,
    Felipe

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  4. Boa noite Marli,

    Maravilhosso texto...uma bela viagem inspiradora, mais uma vez parabéns.....abçs.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/


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Beijinhos!

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