27 de setembro de 2012

Estranho num mundo estranho III





- Alguém têm alguma pergunta?
Ninguém disse nada. Ninguém perguntou nada. O que não significava que não tinham dúvidas, possivelmente as tinham, mas acontecia alguma coisa com as crianças que quando deveriam perguntar simplesmente não perguntavam. Levavam a dúvida para casa e de casa de volta para a escola; para as provas. As terríveis e temíveis provas que os faziam serem julgados e se julgarem como burros ou inteligentes. Quando na verdade todos eram iguais, tinham a mesma imensa capacidade, porém precisavam ser ensinados de formas diferentes. O que era óbvio para alguns, podia se tornar um grande enigma para outros. Mas com paciência e o jeito certo de ensinar, podia-se ajudar a despertar todas as mentes.
Os professores precisavam acordar para esta realidade e os pais também!
Eram nos bancos de escola que nasciam os primeiros sonhos e que se formavam os primeiros que se considerariam fracassados, só por que nunca tiveram as melhores notas.
Nenhuma criança, nenhum aluno deveria ser tratado com indiferença. Jamais se deveriam permitir serem vistos como um grupo, e sim, indivíduos. Na escola, as crianças e jovens, deveriam ser fortalecidos, e não ignorados pelos professores.
Ensinar ia além dos livros e do quadro. Ensinar era uma arte que ia além das quatro paredes da sala de aula, além do pincel atômico. Ensinar ia além da matemática, da ciência, história e geografia.
Ensinar a tomar decisões, sonhar, saber o quanto cada uma daquelas pequenas centelhas eram capazes, e de que acima e além de qualquer coisa, todos eram feitos de sentimentos.
Um professor de verdade, de verdade mesmo!, não conseguia ignorar os problemas pelos quais os alunos estavam passando. Por que ele era mais do que um professor, e seu dom era ensinar!





Era final de tarde.
Aquele momento em que a mãe ia tratar os bichos. Jê gostava de ajudá-la. Gostava de estar perto dos animais, existia um amor inexplicável entre eles.
Tinham duas vacas e um boi, três porcos –mamãe, papai e filhinho – mais algumas galinhas chocadeiras e um galo que gostava de soltar a voz em horas inoportunas como às quatro da madrugada, além dos dois cachorros brabos, muito brabos. Deles – tinha medo.
Jê se divertia tratando os animais, principalmente as galinhas que corriam até onde jogavam o milho; desesperadas.
Naquela tarde, em especial, fazia bastante frio. A mãe do pequenino preferiu deixá-lo dentro de casa, enquanto alimentava sozinha a criação. Deu ordem para que ele tomasse banho enquanto.
Cabelos molhados e penteados, Jê olhava através do vidro da janela da cozinha ao lado do fogão a lenha, sua mãe jogando milho para as galinhas que ciscavam felizes.
Felizes e precipitadas.
Felizes por terem alguém que as alimentasse, e as deixasse passeando livremente pelo terreno.
Será que as galinhas pensavam? – pensou ele.
Jê era pequeno, e de pequeno se aprendia muita coisa. Com perguntas que deixavam os adultos meio deslocados as crianças iam descobrindo e desnudando o mundo.
Iam aprendendo.
- Mãe, - começou, quando ela pôs os pés dentro de casa, no assoalho que rangia conforme os passos dados, com os braços cheios de lenha. – Você ama elas?
- Elas quem? – perguntou distraída, enquanto despejava as lenhas no baú em que Jê estivera sentado e que agora segurava a tampa erguida, ajudando-a.
- As galinhas. – disse, apontando para fora da janela, para as poucas que ainda estavam ciscando no pátio.
Ela parou por um instante, um breve e rápido instante.
- Ninguém ama as galinhas filho. – falou tirando a mão pequenina da tampa e fechando o caixote de madeira, que guardava as lenhas. – São só animais. – completou, soltando em seguida a mão da doce e diferente criatura que pusera no mundo, sob a graça de Deus.
Jê pensou sobre o que sua mãe acabara de dizer. As crianças tinham por costume questionar. Maldição ou benção, qual seria a definição de tal atitude?
- Deus não ama as galinhas? – perguntou ele, de volta sentado no baú de madeira, enquanto a mãe andava de um lado a outro com pressa, começando a preparar o jantar para o marido e o filho. Havia tanto a se fazer numa casa, ela: a rainha do lar não parava jamais. Mais parecia uma escrava do que uma rainha!
- Sim, Deus ama as galinhas. – respondeu, sem parar o que estava fazendo.
- Então, por que ninguém mais ama? – continuou Jê em sua reflexão infantil.
Parou.
De repente, parou.
Não sabia o que responder. Seu filho, tão pequenino e frágil, perguntando coisas que nem ela nunca ousara perguntar. Por isso não saberia responder.
Estava confusa. Tristemente confusa. Tinha que preparar o jantar, passar um pano na cozinha, arrumar a mesa, tomar banho... e, tinha seu filho, sentado no baú de madeira olhando-a, esperando por uma resposta dela. Uma resposta que ela não sabia dar, mas sabia que ele precisava que dissesse alguma coisa que não fosse: “Não pense nessas bobagens”, “Essas perguntas estão me deixando tonta!”, “Chega dessa estória. Vá brincar!”
Deus! Como não queria fazer aquilo. Mas parecia ser a única alternativa. Era fraca, era fraca, não tinha a força de uma verdadeira mãe. Precisava dizer alguma coisa, alguma coisa.
- Acho que por que ninguém nunca se fez essa pergunta. – disse numa frase inteira e rápida, voltando a seus afazeres domésticos.
Estava com medo do que poderia vir a seguir, qual seria a próxima pergunta? Conseguiria pensar numa resposta que não destruísse a mente de seu filho amado? Oh, céus!
Para sua surpresa Jê levantou-se e foi pôr a mesa. Ela observou-o por um milésimo de segundo e passou o resto do tempo em que cozinhou e passou o pano no chão da cozinha, pensando no seu pequenino. Em como ele era especial. Tão especial que às vezes a assustava. Só queria que seu filho fosse amado como ela o amava. Mas será que o mundo, quando o conhecesse, saberia amá-lo? Por que estrada ele seguiria?
Sabia que naquele momento não teria uma resposta, só o tempo poderia responder. Só o tempo!
Serviu o jantar.
(M.C.Jachnkee)


Um comentário:

  1. Boa tarde Marli,

    O que falar desse lindo texto....os professores são muito importantes, pena que aqui são pouco valorizados né.....parabéns pelo excelente post....abçs.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Obrigada por sua visita e por seu comentário!

Beijinhos!

© M.C. JACHNKEE. Powered by Blogger :: Voltar ao topo imagem-logo