11 de outubro de 2012

Estranho num mundo estranho IV


Apagou a luz. O marido já estava no quarto e seu filho também. Como de costume, parou em frente ao quarto do filho, e com passos suaves entrou para ver se estava tudo bem com ele.
Era tão lindo ver uma criança repousar. A mais linda imagem do mundo. A prova perfeita de que Deus existia!
Deu um beijo leve de boa noite, apagou a luz e saiu. Foi para seu quarto, o marido roncando, nem a esperara, ronc, ronc, roncava.
Sentou-se em frente à penteadeira, pegou a escova e passou pelos cabelos lisos e loiros que denunciavam sua origem germânica. Vez ou outra recordava-se de quando estava na flor da juventude. Em como era bom arrumar-se para que os rapazes a admirassem e as amigas a invejassem. Fechou os olhos e viu-se com quinze anos, tinha tanta energia, a vida corria por suas veias. Sonhava em viajar o mundo, acabou casando e vivendo num lugar que a fazia se esconder dele. Quanta ironia! Quantos sonhos desfeitos por amor! Um amor que ela nem sabia se era amor, mesmo. Era tudo tão, mas tão diferente no começo. Mal sabia ela, que aquilo era ciência; as três substâncias químicas responsáveis pelo Amor encontravam-se juntas apenas no começo do relacionamento, quando tudo era muito “Amor, I love you.” Depois o organismo se acostumava com as substâncias e se tornava resistente a elas. Era aí que acabava surgindo a separação, as queixas ou o companheirismo.
Abriu os olhos e o que viu, foi uma linda mulher que estava envelhecendo a cada movimento dos ponteiros do relógio. Uma mulher que não tinha mais força, tempo, nem dinheiro para cultivar e cultuar sua beleza.
Levantou-se, apagou a luz, e deitou-se ao lado do marido. O homem pelo qual abrira mão dos seus desejos mais secretos. No início chegou a acreditar que poderia ter tudo o que queria, mas aí, num belo dia, abriu os olhos e se viu com um filho nos braços, marido e animais para cuidar e alimentar. E aos poucos foi deixando de sonhar. Foi permitindo que seus sonhos envelhecessem no cenário dos verbos. E já não tinha mais força para lutar. Havia perdido a esperança nas fantasias de adolescente. Tudo por que, apenas um dia, e depois outro e outro, ela não se permitiu sonhar.




Na folha quero que vocês desenhem qualquer coisa que quiserem desde que tenha água. – disse a professora, enquanto ia de carteira em carteira distribuindo-as.
- Chuva também pode professora? – perguntou um aluno de cabelo espetado.
- Sim Paulo. – respondeu ela, e querendo dar uma de boa mestra aproveitou para acrescentar – Chuva também é água. Nós bebemos a água da chuva.
Um aluno, perto dela, um pouco intrigado, fez um comentário baixinho, mas que a professora ouviu!
- Então não posso desenhar o mar.
- Por que não Lívio? – perguntou ela, surpresa.
- Por que a gente não bebe o mar. – respondeu ele, ao se recuperar do susto, dela o ter ouvido.
A professora riu, diante do raciocínio do jovem aluno e tentou apagar o mal entendido que cometera ao querer explicar.
- O mar, também é água. – disse – A água do mar! Nós não tomamos por que é salgada, mas é água. – finalizou. Ele parecia ter entendido.
Depois do tempo estabelecido, as crianças foram mostrar seus desenhos, e quase todos acabaram desenhando o mar, com dois coqueiros, a areia e o sol, alguns acrescentaram alguém de biquíni ou tomando banho no mar.
- Olhem para seus desenhos. – disse a professora. – Vejam como a água é importante. Sem ela não podemos viver. A água mata a sede, e como é bom! – alguns alunos concordaram e dois aproveitaram para pedir para ir tomar água. Prosseguiu então – Nós lavamos a roupa, fazemos a comida, tomamos banho, regamos as plantas...Precisamos da água, por isso não devemos jogar sujeira nos rios, e nem na rua, por que vai chover e a chuva levará a sujeira para os bueiros que levarão para os rios.
A professora seguiu na sua tentativa de conscientizar os pequeninos. Falou coisas bonitas, que eles não entenderam muito, mas, diziam que era de pequeno que se desentortava o pepino. Se, era verdade, ou não, ela não sabia. Só estava fazendo sua parte como cidadã e como professora.
Seguindo a metodologia.
Por fim, quando terminou de falar, e com alguns alunos cochichando entre si assunto que nem de longe era a água, ela perguntou tentando incluí-los mais afetivamente na aula. Por que a água é legal?
- Por que podemos ir à praia. – respondeu sem delongas Laressa.
Os alunos entraram em estado de euforia ao ouvir aquelas palavras, os que já tinham ido falavam em como era legal e os únicos dois que nunca puseram os pés na areia da praia, ficaram ouvindo atentos. Jê era um deles e o outro era Tiago, um garoto esperto, bonito, mas que nunca fora à praia antes.
A professora olhou para o relógio e como faltavam sete minutos para bater o sinal e todos irem para casa, deixou que a conversa transcorresse, mesmo que tendo fugido um pouco da importância da água e ido parar no prazer de brincar no mar.
Eles estavam aprendendo de qualquer forma. Também era na liberdade que se aprendia. Se a professora sabia disso? Ninguém sabia.
A troca de informação e experiências, é claro, não acorreu na absoluta paz. A professora precisou de todo o jeitinho que só os educadores tinham para tentar controlar um pouco tanta ansiedade.
Por fim, o sinal tocou e as crianças saíram como um foguete em disparada. Quem os visse pensaria que tinham que ir correndo para casa, mas nada disso! Muitos acabavam ficando alguns instantes em frente à escola conversando. A pressa todo era para sair da escola, e não ir para casa.
Vai entender!(M.C.Jachnkee)




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