7 de junho de 2013

Pequeno Jê.


Primeira segunda-feira de cada mês era dia de cantar o Hino da Bandeira no pátio do colégio.
Braços estendidos ao lado do corpo, olhos a contemplar a beleza da bandeira hasteada.
Alguns não sabiam a letra e só abriam a boca; outros sabiam, mas não a compreendiam de fato. Mas todos ficavam no pátio, braços estendidos, cabeça erguida.
Terminado o momento de louvor, houve um instante de silêncio, e quando perceberam que estava tudo calmo demais, começou-se a conversa paralela.
Assim, os alunos desde o pré até a oitava série, seguiram para suas respectivas salas.
-Bom dia!
-Bom dia, professora! – disseram num coral muito bem ensaiado.
Ela sorriu, enquanto ajeitava a sua mesa. Era engraçado o jeito que eles falavam bom-dia-profes-sora. Isso a fazia se lembrar da infância, e de que algumas coisas não mudavam. Não, no interior, pelo menos. Lá, os valores eram conservados com mais garra. Poder ouvir bom-dia-profes-sora, era algo que a deixava feliz.
Pegou o pincel atômico e escreveu três palavras muuuito estranhas, no quadro. Por um instante, ficou observando a reação de seus alunos, que iam desde o espanto até a indiferença.
- Estas três palavrinhas...
- Palavrinhas! – espantaram-se alguns.
Com um sorriso sincero, corrigiu-se:
-Estas três palavras podem ser novas para vocês hoje. Mas acreditem, elas irão acompanhá-los por muitos anos.
Não acrescentou que tudo o que estavam estudando, os acompanharia durante anos e anos de suas vidas. Preferiu não assustá-los demais.
-Oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. – leu alto e em bom tom. – Vou explicar para vocês e verão como é fácil.
Alguns duvidaram de que pudesse ser verdade. Eram palavras tão assustadoras que o assunto deveria ser tão assustador quanto.
Vontade de fugir. Levantar da carteira e ir pra casa. Mas tinham de ficar. Iam para a escola para aprender, então tinham de ficar para saber o que parecia ser uma estória de terror e que eles não tinham vontade nenhuma de ouvir. Mas tinham de ficar.
- Oxítonas são todas as palavras que a sílaba tônica é a última.
-O que é sílaba tônica professora? – perguntou sem delongas Laressa.
-É a sílaba mais forte. – explicou – Vou escrever umas palavras, para ficar mais fácil.
Escreveu quatro palavras e foi pedindo a ajuda dos alunos para descobrirem qual era a sílaba mais forte. No fundo eles pareceram gostar. Afinal; oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas não eram tão perversas assim. Podiam, quem sabe, se tornarem bons amigos.
Bons, não! Apenas, amigos.
- Jê, por que você não compra uma borracha? – perguntou Tiago, já que ele vivia pedindo a sua emprestada.
Jê passou a borracha no caderno, cabisbaixo. Soube-se que foi a última vez que a pediu emprestada. Ele interpretou como se o outro garotinho não estivesse mais a fim de emprestar-lhe seu material. Aquela pergunta doe-lhe na alma infantil. Não sabia a resposta. Não sabia o por quê.
Tudo bem que não podia comprar o lanche da cantina, e sua mochila era velha do ano passado. Sabia lidar com isso e até com a falta de uma borracha para apagar seus erros no caderno escolar. Mas quando lhe questionavam tais faltas, era estranho pensar no por quê. Como se houvesse um por quê, ou mesmo se houvesse, como se fosse importante ter tudo o que todos tinham. 
Às vezes, muitas vezes! Ele desejava poder ter também. Mas sabia que havia outras coisas mais importantes. Acredite, ele sabia!
Gostava de imaginar.
Jê adorava o fato de poder pensar em coisas que não existiam de fato para ele, mas que pensando pareciam tão reais que às vezes, só o pensamento já lhe acalmava a falta do que queria, mas não tinha. Porém, podia desejar e pensar que tinha. E ser feliz mesmo assim. Mesmo sabendo que não tinha de fato, mas poderia ter sempre que pensasse na coisa.
Estranho. Podia-se ter se, se pensasse que tinha.
Ele não negaria o fato de que as queria.
As queria de fato!
Geralmente o que as pessoas negavam com veemência era o que mais desejavam. Jê não negava a si mesmo que queria poder comer os bolos da cantina, e ter uma mochila só um pouquinho melhor, e também, quem sabe uma borracha para poder errar com mais tranqüilidade. Mas, pensando bem....
Pensando bem, ele não negava a si mesmo, mas talvez negasse aos outros tais desejos. Eram seus. Só seus.
Difícil seria conviver com os olhares de pena, os gestos de caridade maldita, quando tinham ouro e davam ferro, achando-se bons por isso.
Jê não era um garotinho fraco. É bom lembrar disso! Não vivia agoniado só por que não podia ter o que os outros tinham com tanta facilidade. Estava contente sim, com o que tinha. Só que,...era humano. Desejava!
Assustadoras eram as pessoas quando achavam que por não poder possuir, tornava alguém infeliz. Incompleto.
Existiam os que assim se sentiam. É verdade! Mas felicidade de verdade, que vinha de mãos dadas com o entusiasmo e a alegria, não tinha nada a ver com uma mochila nova, bolos na cantina nem borracha própria.(apesar de que as queria muito!)
Era estranho como o mundo parecia estar dividido entre vencedores e perdedores. Felizes e infelizes, pelo que possuíam e não pelo que eram.
Ter um bom trabalho, alto salário, casa grande; era para vencedores.
Felizes.
Felizes?
Morar numa casa pequena e simples, estudar em escola pública, era para perdedores.
Infelizes.
Infelizes?
Lenda estúpida!
Felicidade para Jê era poder chegar em casa depois de uma manhã de muito estudo na escola, e ver que a mãe preparara um de seus pratos favoritos. Era ir na casa dos avós, e dividir a tigela de bolinhos de chuva e enrolar-se no agasalho deles. Era desejar com mais força que a mochila, o bolo e a borracha, um colo do pai.
Felicidade não precisava de dinheiro, só de gestos. Ela não era adquirida, e sim vivida. Não existia nas lojas, só na vida."
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Boa semana para todos nós!
Beijocas.

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